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Ciências Humanas e suas Tecnologias
Conteúdo
Evolução histórica
Objetivos
Discutir com os alunos a relação histórica entre culinária e organização da vida cotidiana
Introdução
Javali ao molho de peixe decomposto? Até o avantajado estômago do gaulês Obelix o glutão das histórias em quadrinhos talvez se embrulhasse com tamanha heresia. Mas o prato pode ter sido mais comum do que se imagina. Afinal, os romanos do tempo de Júlio César temperavam carnes com o garum, molho de peixe obtido pela decomposição do pescado envolto em sal. Essa é uma das informações de "História na Panela", reportagem sobre um ramo florescente da arqueologia: a reconstrução culinária. Tudo se passa como se os pesquisadores colocassem na cabeça um chapelão de mestre-cuca e examinassem os registros históricos em busca de receitas da Antigüidade e da Idade Média. Antes de comprar um livro que ensine a cozinhar uma iguaria medieval, como aconselha o texto de VEJA, você pode mostrar aos alunos que os alimentos e o modo de prepará-los representam fontes importantes para o conhecimento do cotidiano em determinado período histórico. Desse modo, suas aulas vão ficar muito mais saborosas.
Atividades

Chame a atenção para a reprodução da pintura Banquete de Casamento (ao lado), executada entre 1566 e 1568 pelo artista flamengo Pieter Brueghel. Proponha que a turma identifique os aspectos salientados pelo pintor. Mostre que, em primeiro plano, alguém derrama vinho ou cerveja num jarro. Outras bebidas camponesas tradicionais eram a sidra, feita à base de suco de maçã fermentado, e o hidromel, mistura de água e mel ou vinho e mel. Também são destacados dois ajudantes de cozinha que transportam papas para a mesa do banquete. O pão, as papas e a sopa constituíam os principais itens de uma dieta na qual a carne era um luxo, até mesmo em ocasiões festivas. O artista retrata as feições rudes e sérias dos convivas, totalmente entregues ao ato de se alimentar. Era desse modo que os nobres eram mostrados em seus banquetes? É importante que os estudantes percebam que a composição de Brueghel é mais realista, o que faz de seus quadros uma valiosa fonte histórica.

Mostre aos alunos a reprodução do afresco O Casamento de Júpiter e Juno (ao lado), pintado na Villa Medici, em Florença. Ensine que a pintura, renascentista, procura recuperar elementos do passado greco-romano. Todavia, alguns elementos trazem a marca do século XVI, quando ela foi executada. Será que a turma consegue identificar esses anacronismos? Na composição, as divindades estão sentadas e não reclinadas em divãs, como acontecia nos banquetes da Roma antiga. E sobre a mesa, a ambrosia e o néctar, comida e bebida dos deuses imortais, dividem espaço com a carne de ave e o pão, itens do cardápio da nobreza medieval e renascentista européia. A águia e os pavões, por sua vez, são animais associados a Júpiter e Juno.
Para debater
A classe provavelmente sabe que, para manter a plebe de Roma sob controle, as elites adotaram a política do pão e circo, oferecendo diversão e alimento gratuitos à população urbana. O que essa estratégia sugere sobre os hábitos alimentares dos romanos? Quem responder que o pão constituía o alimento básico acertou: o pão e a sopa eram os itens fundamentais de uma dieta simples, que também incluía peixe, carne, legumes, frutas e vinho. Os romanos foram os primeiros a fabricar o produto em grandes quantidades. Mas o pão do pobre, distribuído gratuitamente, era duro e escuro, bem diferente daquele branco e macio, destinado aos ricos.
Conte que os legionários romanos recebiam pagamento em sal, indispensável para conservar os alimentos e dar gosto à comida. Eis a origem da palavra salário, aliás. Lance uma questão para debate: esse exemplo mostra que certos itens da culinária podem extrapolar os limites da cozinha e marcar toda uma estrutura social? De que forma?
Mostre que o consumo de alguns pratos pode se tornar indício de ortodoxia religiosa. É o caso da carne de porco no Brasil colonial. Acreditava-se que esse alimento, proibido aos judeus, era evitado pelos cristãos-novos, descendentes de hebreus convertidos e que em certos casos procuravam retomar discretamente as crenças de seus antepassados. Em resumo, ser alérgico à carne de porco ou simplesmente não apreciar o sabor podia resultar em prisão sob a suspeita de heresia. Outro hábito perigoso era o banho na sexta-feira à tarde, pois os judeus costumavam agir assim, preparando-se para o sabá. O que essas atitudes sugerem sobre a tolerância religiosa nesse período?
A que horas era servido o almoço no início do período colonial? E o jantar? Ensine que o camponês lusitano trouxe seus costumes alimentares para o Brasil. De manhã bem cedo era o desjejum, que consistia em pão ou fruta seca. Por volta das 9 horas vinha o almoço, geralmente à base de pão e sardinha; o jantar estava na mesa ao meio-dia. No cardápio, sopa, pão, cozido de carne e legumes. À tarde, podia-se fazer uma merenda; na ceia, à noite, repetia-se mais ou menos o cardápio do jantar. Utilizavam-se os poucos talheres e pratos de modo comunitário, exceto no caso da sopa, que era tomada com colher e tigela próprias. Em que medida o ciclo alimentar expressava um ritmo de atividades que se estendia do nascer do sol ao anoitecer?
Ensine que os restaurantes surgiram na França, no final do século XVII. Receberam esse nome porque serviam um caldo nutritivo que, acreditava-se, restaurava as forças. O que o aparecimento desses estabelecimentos sugere sobre a vida urbana do início da Idade Moderna? Lembre que, no período medieval, a refeição coletiva era uma exceção: em geral, cada família camponesa comia na própria casa. Leve a turma a perceber que as cidades aos poucos tornaram-se mais complexas, recebendo visitantes que necessitavam de locais onde comer. Ensine que depois da Revolução Francesa, os grandes cozinheiros deixaram de trabalhar exclusivamente para a aristocracia e migraram para os restaurantes de luxo. Desse modo, a alta cozinha deixou de ser privilégio da nobreza e tornou-se acessível para a burguesia, que podia pagar pelas receitas sofisticadas.
Para saber mais
Ícone pós-moderno
Diz a lenda que o hábito de comer pedaços de carne colocados entre fatias de pão foi criado por Lorde Sandwich, um oficial da Marinha inglesa viciado em jogo, que não queria afastar-se do baralho para se alimentar. O fato é que o militar deu seu nome a um alimento prático, gostoso e difundido entre os jovens do mundo inteiro embora muitos questionem suas qualidades nutricionais. Hoje, o sanduíche constitui um ícone pós-moderno em especial os da rede McDonalds. Não por acaso, a abertura de uma lanchonete dessa cadeia em Moscou sinalizou a abertura do regime para as tentações capitalistas. Os lanches da rede são mencionados em filmes como Pulp Fiction, do diretor cult Quentin Tarantino, e inspiram obras de arte como a do pintor Herve di Rosa (http://oc.wikipedia.org/wiki/Imatge:HervedirosaMacDo.jpg).
Consultoria Equipe de VEJA NA SALA DE AULA